"Teu domínio é tua maldição e teu fardo; em tuas terras, teu comando é lei. Que todos se curvem à tua vontade enquanto pisarem em teu solo. Nenhuma voz ousará se erguer contra ti, pois desafiar tua palavra é selar o próprio destino nas sombras." - 2ª Tradição: O domínio.

 

• ☆ •

Pov de Alexandra

 

 

A madrugada fria de sexta-feira se arrastava, e o silêncio absoluto em minha casa só amplificava a sensação de inquietação que corria por minhas veias. O sono me escapava, e a ideia de permanecer ali, confinada entre quatro paredes, era insuportável. Precisava fugir, respirar, sentir a noite. Tomei um banho rápido e vesti minha armadura: uma blusa preta justa, uma mini saia de couro, e meus inseparáveis coturnos. Fiz uma maquiagem pesada, o preto dos meus olhos destacando o brilho gelado que eu sabia que carregava. Soltei meus cabelos e saí sem um destino em mente, apenas querendo fugir da sensação opressiva que me acompanhava.

 

 

Andei pelas ruas desertas, o som das minhas botas ecoando no asfalto úmido. Nunca gostei da ideia de ter um motorista me seguindo, vigiando cada passo. Ser rica não significa que preciso agir como uma marionete da alta sociedade. Depois de caminhar por uns 20 minutos, encontrei um pub abarrotado de almas inquietas como a minha. Entrei, sentindo os olhares se voltarem para mim, mas ignorei todos, focando apenas em chegar ao balcão. Pedi uma dose de uísque e logo o barman, um homem com um sorriso debochado, decidiu me desafiar.

 

 

— Identidade, baby. — Ele disse, a voz carregada de sarcasmo.

 

 

Com um olhar gélido, tirei o documento e joguei sobre o balcão.

 

 

— Aqui, otário. — Respondi seca.

 

 

Ele alternou o olhar entre o documento e eu, o sorriso sumindo de seu rosto quando percebeu que não tinha espaço para brincadeiras. Peguei o copo e virei o uísque de uma vez, sentindo o calor abrasador descendo pela minha garganta. Pedi a garrafa inteira, não estava disposta a ficar ali. Paguei e saí, deixando a atmosfera abafada do pub para trás, procurando algo que pudesse acalmar minha mente perturbada.

 

 

Continuei andando, atravessando ruas mal iluminadas até chegar a um bosque envolto em sombras profundas. Parecia uma cena retirada de um pesadelo, mas para mim, era o mais próximo que eu chegava de sentir alguma paz. Adentrei o bosque, meus passos leves sobre as folhas secas, e segui o caminho familiar que me levava ao cemitério abandonado, o único lugar que realmente parecia me entender desde que cheguei a Londres.

 

 

Os túmulos antigos, cobertos de musgo e quase esquecidos, eram meus confidentes silenciosos. As estátuas quebradas e as lápides desgastadas me ofereciam um conforto que o mundo dos vivos jamais poderia. No entanto, ao chegar ao meu refúgio habitual, uma surpresa me aguardava. Um estranho estava deitado sobre o único túmulo ainda intacto, seu olhar fixo em mim, como se já me esperasse.

 

 

— Alguém te autorizou a se sentar? — Ele perguntou com um tom de desafio, sem mover um músculo.

 

 

— Sempre venho aqui... Se há um intruso, esse alguém é você. — Respondi, sem me intimidar.

 

 

Ele levantou-se lentamente, os olhos penetrantes não desviando dos meus. Olhou ao redor, observando o ambiente com um ar de desdém.

 

 

— Por acaso seu nome está gravado por aqui? — Ele provocou.

 

 

Em silêncio, apontei para a estátua de anjo deteriorada que estava atrás dele. Ele se virou e leu as palavras entalhadas na pedra, seu tom mudando ao pronunciar o nome que estava lá.

 

 

— Alexandra... Dakvell... Um nome lindo, mas você não parece estar morta para ser a dona deste túmulo.

 

 

— Não vou discutir com você. — Murmurei, abrindo a garrafa de uísque, mas antes que pudesse beber, ele a tirou da minha mão com uma rapidez inesperada.

 

 

— Onde está sua educação? Não vai me oferecer um gole? — Ele perguntou, com um sorriso que me irritava profundamente.

 

 

— Você é muito folgado! — Rebati, irritada. — Além de invadir meu cemitério, agora se apossa da minha bebida?

 

 

— Larga de ser marrenta, gata. — Ele disse, dando um longo gole no uísque. — Você não tem medo de andar por aí, sozinha, a essa hora da noite? Ainda mais em um cemitério abandonado? Posso ser um assassino...

 

 

— Se for, faça seu trabalho logo. Será um favor — Repliquei, recuperando a garrafa e tomando um gole.

 

 

Não estava no clima para conversa. Levantei-me e comecei a andar entre os túmulos, procurando outro canto solitário.

 

 

— Pra onde você vai, gata? — Ele perguntou, seguindo-me de perto.

 

 

— Vou embora. Vim aqui para ficar sozinha. — Resmunguei, sem olhar para trás.

 

 

— Larga de ser chata e volta aqui.

 

 

— Eu nem te conheço! E acredite, você não vai querer ser meu amigo.

 

 

— Por quê? Você é uma vampira? — Ele disse, rindo de forma zombeteira.

 

 

— Não, sou pior. — Respondi, sentindo o peso de suas palavras.

 

 

Ele parou de rir e me olhou de forma estranha, como se estivesse avaliando cada movimento meu. Eu continuei andando, mas seus passos ociosos logo me alcançaram.

 

 

— Não existe nada pior que um vampiro... — Ele disse, segurando meu braço com firmeza. Aproximou-se do meu pescoço, inspirando profundamente o ar ao redor, como se estivesse capturando algo mais do que meu cheiro. Ele depositou um beijo leve e frio em minha pele, me causando arrepios inesperados. — Estranho...

 

 

— O quê? — Perguntei, tensa.

 

 

— Você é especial.

 

 

— Especial? — Repeti, sem entender.

 

 

— Sim... Você já tem dono...

 

— Dono?! — Comecei a rir, sentindo o absurdo da situação. — Eu não tenho nem amigos, quanto mais um "dono". Se eu fosse você, parava com as drogas.

 

 

— Drogas são para os fracos, gata. — Ele respondeu, com um sorriso enigmático, antes de me puxar de volta para o túmulo. — Prazer... Liam Payne. — Disse, beijando minha mão com uma formalidade que parecia fora de lugar.

 

 

— Bom, o meu nome você já sabe. — Respondi, ainda desconfiada.

 

 

— Sério... O que uma garota linda como você faz em um cemitério abandonado a essas horas? — Ele perguntou, inclinando a cabeça, seu olhar intensamente curioso.

 

 

— Não tenho amigos, e estava sem nada para fazer, então resolvi vir ao meu lugar preferido. — Respondi, sem ânimo.

 

 

— Você não tem medo de ser atacada?

 

 

— Fala sério! Que ser humano viria para essa parte abandonada?

 

 

— Tipo... Você? — Ele respondeu, arqueando uma sobrancelha.

 

 

— Não me considero humana, então não conto. — Disse, tomando mais um gole do uísque. — Mas e você? O que faz aqui?

 

 

— Gosto de me isolar... Para caçar.

 

 

— Caçar? — Repeti, segurando o riso. — O que você é? Um vampiro? — Perguntei, rindo debochadamente.

 

 

— Você acha que se eu fosse um vampiro, estaríamos tendo essa conversa agora? — Ele disse, erguendo uma sobrancelha.

 

 

— Lobisomem você também não é.

 

 

— Como pode ter tanta certeza assim?

 

 

— Não estamos em lua cheia... E você disse que gosta de se isolar para caçar...

 

 

— E quem disse que preciso da lua cheia para me transformar? — Ele respondeu, o tom de voz ganhando uma gravidade que me deixou desconfortável.

 

 

— Minha nossa, você tomou um gole e já está bem louco! — Exclamei, revirando os olhos. — Essas baboseiras não existem. Vamos parar com esse assunto.

 

 

— Tem medo? — ele provocou, sorrindo.

 

 

— Claro que não, seu besta!

 

 

— Então o que é?

 

 

— Eu queria poder me enquadrar em algum lugar... Quem sabe até mesmo ser algo sobrenatural... Mas não, eu tenho que ser única... Diferente...

 

 

— E isso não é bom?

 

 

— Não. — Eu disse, minha voz cheia de tristeza. — É horrível você não se encaixar, sabe... Isso me faz ser isolada, não ter amigos...

 

 

— E se você pudesse fazer uma escolha... Qual seria?

 

 

— Nenhuma... Se for para ter essa vida que tenho... Prefiro nem existir...

 

 

— Você já tentou se matar, não é? — Ele disse de repente, o tom mudando para algo mais sombrio.

 

 

— Já, mas nunca deu certo. Como se algo ou alguém sempre me salvasse...

 

 

Ele me olhou com uma intensidade que fez o ar ao nosso redor ficar pesado, quase palpável.

 

 

— Você é uma alma marcada. Há algo de muito antigo em você, algo que deveria permanecer oculto. E se continuar se expondo assim, não será a escuridão que virá te buscar... Mas aqueles que desejam possuir o que é seu.

 

 

Antes que eu pudesse responder, senti uma voz rouca e familiar sussurrar ao meu ouvido.

 

 

— Saia... agora! Você é minha... E só minha. - Disse a voz em um sussurro.

 

 

Olhei ao redor, mas não havia ninguém. Apenas Blake e eu. Senti um calafrio enquanto ele me observava, seu olhar mais feroz do que antes. Sem aviso, ele me puxou com força.

 

 

— Precisamos sair daqui, agora.

 

 

— Por quê? O que está acontecendo?

 

 

— Apenas confia em mim. Você não quer conhecer o que te segue.

 

 

Ele me pegou no colo, e antes que eu pudesse protestar, mandei minha mente silenciar. Segurei-me nele, os olhos fechados enquanto o mundo ao nosso redor parecia se distorcer. A última coisa que lembro é o som distante da minha própria respiração, ecoando na escuridão que nos envolveu.

 

 

Acordei no meu quarto, as memórias turvas, como se tudo não passasse de um sonho distorcido. Mas o cheiro dele ainda estava ali, impregnado na minha pele, me lembrando que algumas sombras não se vão com o nascer do sol.

 

 

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