"Os filhos de teu sangue serão tua eterna maldição. Até que libertes a tua descendência, suas almas estarão acorrentadas à tua vontade. Seus pecados, suas sombras e tormentos, todos recairão sobre ti, condenando-te eternamente a carregar o peso de suas transgressões." - 4ª Tradição: A Responsabilidade


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Pov de Alexandra

 

 

 

 

O som de um estrondo ecoou pela escuridão, e os estilhaços do vidro explodiram para dentro do quarto, cortando o silêncio da madrugada. Um arrepio gelado percorreu minha espinha ao ver a sombra na janela, uma figura negra e indistinta, oculta pelas trevas. Eu não conseguia ver seu rosto, mas não precisava. Eu já sabia quem era.

 

 

— Acorde, Alexandra... — A voz rouca e carregada de malícia sussurrou, espalhando-se pelo quarto como um veneno invisível. — Acorde!

 

 

Despertei com um sobressalto, o coração martelando no peito. O quarto estava mergulhado na penumbra da manhã, e a luz fraca tentava, sem sucesso, penetrar a cortina entreaberta. O aroma inconfundível de Harry estava no ar, impregnado em cada canto do meu quarto. Como ele podia estar ali? Um calafrio me percorreu quando percebi que voltar a dormir era impossível. Levantei-me e caminhei até o banheiro, tentando afastar o peso do sonho que ainda apertava meu peito.

 

 

Ao me encarar no espelho, vi meu reflexo desfeito, cabelos emaranhados e o rosto marcado pela inquietação da noite. As imagens do sonho invadiram minha mente como um ataque, e, sem pensar, levei a mão aos lábios. Eles estavam doloridos, latejando como se um beijo proibido tivesse sido selado ali. Meu coração disparou quando toquei meu pescoço, sentindo uma dor incômoda. Afastei os cabelos e, horrorizada, vi a marca – um risco profundo, recente, como se alguém abrisse uma pequena ferida.

 

 

O pânico tomou conta de mim. Como um simples sonho poderia deixar marcas tão reais? Saí do banheiro às pressas, voltando para o quarto com o coração descompassado. Abri as cortinas de uma vez e fiquei paralisada ao ver os cacos de vidro espalhados pelo chão.

 

 

— Mas... como...?

 

 

— Bom dia, menina. — A voz de Bárbara me pegou de surpresa. Ela entrou no quarto com a serenidade de sempre, mas meu nervosismo a fez estreitar os olhos. — Já de pé a essa hora?

 

 

— Bom dia, Bah... — respondi, tentando esconder a confusão na minha voz. — Você ouviu algo estranho?

 

 

— Não, menina... Por que pergunta? — ela disse, se aproximando de mim com uma expressão preocupada.

 

 

— Olha isso... — Apontei para os cacos brilhando no chão como pequenas lâminas prontas para ferir.

 

 

— Talvez algum moleque tenha arremessado uma pedra... — Bárbara sugeriu, embora sua voz soasse hesitante, como se também não acreditasse na própria teoria. — Vá se arrumar para a aula, que eu limpo essa bagunça.

 

 

Eu não queria enfrentar mais perguntas. Voltei para o banheiro e tomei um banho apressado, tentando ignorar o desconforto que latejava no meu pescoço. Me vesti rapidamente e desci as escadas. Peguei uma maçã da cozinha, sem ânimo para comer, e saí, levando comigo o peso de um pesadelo que não parecia disposto a ficar apenas nos meus sonhos.

 

 

A primeira aula foi de matemática, e apesar de tudo correr bem, a ausência de Harry e Liam tornou o ambiente mais vazio. Sentei sozinha e passei mais tempo lutando contra o sono do que prestando atenção na explicação. Assim que o sinal tocou, reuni minhas coisas e fui até o armário, guardando o material rapidamente antes de me dirigir ao vestiário.

 

 

Duas aulas de educação física me aguardavam, algo que eu detestava com todas as forças. Troquei de roupa com desânimo e fui até a professora, inventando uma desculpa qualquer para não participar. Subi as arquibancadas e me sentei, colocando os fones e fechando os olhos, tentando me desconectar daquele lugar.

 

 

Estava imersa na música, sentindo o som me envolver, quando percebi uma presença ao meu lado. Não precisei abrir os olhos para saber quem era; o aroma inconfundível de Harry me envolveu como um abraço invisível.

 

 

— Por que não tira uma foto? Assim, pode olhar quando quiser. — Murmurei, mantendo os olhos fechados, mas com um sorriso provocante nos lábios.

 

 

— Até que não é uma má ideia. — A voz rouca dele ecoou suavemente, um som familiar que me arrepiou.

 

 

— O que você quer, Harry? — Perguntei, sem paciência para rodeios.

 

 

— Você. — Ele sussurrou, os dentes roçando levemente em meu ouvido, enviando um arrepio intenso pela minha pele.

 

 

— Você é um sonho ou um pesadelo? — Questionei, finalmente abrindo os olhos e me virando para encará-lo. Nossos rostos estavam próximos, os lábios quase se tocando.

 

 

— Sou sua realidade. — Harry respondeu, um sorriso enviesado brincando em seus lábios.

 

 

O momento se alongou, nossas respirações se misturando, os olhares presos em um jogo silencioso entre nossas bocas e olhos. O mundo ao redor parecia se desvanecer, e por um instante, a certeza de um beijo pairou no ar. Mas antes que algo pudesse acontecer, fomos abruptamente interrompidos por uma presença feroz que quebrou o feitiço.

 

 

Liam surgiu diante de nós, mas não era o Liam que eu conhecia. Seus olhos brilhavam com uma fúria contida, e seu corpo tremia de maneira quase animalesca.

 

 

— Se não quer perder a cabeça, afaste-se dela agora. — Ele rosnou, a voz repleta de uma ameaça que reverberou no ar.

 

 

— Lobão? — Perguntei, surpresa com a intensidade que emanava dele.

 

 

— Não tenho medo de você. — Harry respondeu com uma calma desafiadora, sem desviar o olhar.

 

 

— Vocês vão mesmo continuar com essa palhaçada? — Questionei, levantando-me e rompendo a tensão sufocante que se instalara.

 

 

— Eu estava quieto. Ele que começou. — Harry rebateu, os olhos ainda fixos em Liam, como se a qualquer momento fosse avançar.

 

 

— Isso não acabou. Nós dois ainda vamos ter uma conversa séria. — Avisei a Harry com firmeza, sentindo a urgência daquele confronto pairar sobre nós. Em seguida, voltei minha atenção para Liam. — E você, vem comigo. — Segurei a mão dele com força, puxando-o para longe dali, sem olhar para trás.

 

 

Eu sentia o tremor percorrer o corpo de Liam enquanto o guiava em silêncio para o outro lado das arquibancadas. Sentamos lado a lado, e ele parecia perdido em pensamentos, mas eu queria respostas.

 

 

— Pode começar. — Disse, encarando-o com firmeza.

 

 

— Começar o quê? — Ele respondeu, tentando se esquivar com um olhar desentendido.

 

 

— Quero saber por que você e o Harry se odeiam tanto. Já ouvi que você e a sua gangue mandavam na cidade até ele chegar.

 

 

— Gangue? — Liam riu, balançando a cabeça. — Eu não faço parte de uma gangue. Isso é bem mais complicado do que você imagina.

 

 

— Sou mais esperta do que pareço, então desembucha.

 

 

— Você não vai sossegar enquanto não souber, né?

 

 

— Não.

 

 

— Ok. Eu conto… No nosso encontro de hoje à noite. Que tal?

 

 

— Só aceito se você prometer não brigar mais com o Harry.

 

 

— Desde que ele pare de dar em cima da minha garota… — Liam murmurou, desviando o olhar para os alunos que faziam algazarra no campo.

 

 

— Sua garota? Não se iluda, Lobão! — Ri, balançando a cabeça.

 

 

— Já te disse que amo quando me chama de Lobão? — Ele disse suavemente, sua mão roçando meu rosto de forma carinhosa.

 

 

— Não… — Murmurei, sentindo um leve rubor subir pelas minhas bochechas.

 

 

 

Antes que pudesse responder, o treinador gritou do campo, interrompendo o momento.

 

 

— Volta pro campo, Payne! — Sua voz ecoou autoritária. — Não é hora de namorar!

 

 

Logo em seguida, avistei Tyler e um outro garoto se aproximando.

 

 

— Vai lá... Não se preocupe comigo. Estarei aqui quando acabar. — Falei, dando um leve sorriso.

 

 

Liam assentiu, me deu um beijo rápido no rosto e voltou para o treino.

 

 

— Oi. — Louis cumprimentou com um sorriso ao chegar. — Podemos ficar com você?

 

 

— Claro, sentem aí. — Acenei, oferecendo espaço na arquibancada.

 

 

Sem perder tempo, Louis apresentou seu amigo, Niall Horan, um garoto peculiar, mas simpático. Ele tinha um ótimo papo, mas logo percebi que tinha um apego incomum à sua comida, resmungando sempre que alguém chegava perto. Passamos as duas aulas de educação física jogando conversa fora e rindo como idiotas, enquanto eu sentia os olhares de Harry me queimarem à distância.

 

 

Assim que o sinal tocou, decidi esperar um pouco mais para deixar o vestiário esvaziar; não gostava de me trocar na frente de desconhecidos. Conversei com Niall e Louis por mais uns minutos, troquei algumas palavras rápidas com Blake, e então segui para o vestiário, que por sorte, já estava vazio.

 

 

Abri meu armário e comecei a me preparar para o banho. Não era porque eu não tinha feito nada na aula que deixaria de tomar um. Enrolei a toalha ao redor do corpo, caminhei até o box, ajustei a água morna e deixei que a sensação relaxante aliviasse a tensão da manhã.

 

 

O banho foi rápido, mas ao sair, com a toalha novamente em volta do corpo, a sensação incômoda de estar sendo observada tomou conta de mim. Eu odiava aquilo, pois era sempre o prelúdio de algo ruim. Enquanto pegava minhas roupas, senti uma presença se aproximar silenciosamente por trás. Não precisei me virar para saber quem era.

 

 

— O que você quer, Harry...? — Sussurrei, mantendo a voz firme apesar do arrepio que me percorreu.

 

 

— Já disse... Quero você. — Ele murmurou, seus lábios tocando meu pescoço, deixando um rastro de eletricidade que fez meu corpo inteiro se acender.

 

 

— Há tantas garotas lindas no colégio... Por que eu? — Questionei, a voz quase falhando.

 

 

— Porque você é especial... E sabe disso. — Harry respondeu com uma intensidade que me deixou sem ar. Ele não era apenas uma presença; era um desejo perigoso, um perigo que eu não sabia se queria evitar ou ceder completamente.

 

 

Fui virada bruscamente e enquadrada no armário, seu corpo se colou ao meu de uma forma que foi me deixando louca.

 

 

— Seu cheiro... — Harry disse passando seu nariz delicadamente em meu pescoço. — Me deixa louco... Não consigo me controlar... — Ele disse lambendo a extensão do meu pescoço me fazendo arrepiar.

 

 

Fechei os olhos com aquele contato, o que eu estava sentindo por Harry era estranho, fazia meu corpo vibrar por dentro. Logo senti seus lábios nos meus em um selinho rápido.

 

 

— Diga... Diga que também me quer... E não aquele cachorro sarnento...

 

 

— Liam... — Foi a única coisa que disse antes de sentir sua boca na minha, pedindo passagem para um beijo selvagem e intenso.

 

 

O que estava acontecendo comigo? Uma parte de mim dizia pra eu me afastar dele, mas a outra queria aquilo mais que tudo, seu beijo era viciante me fazendo querer mais e mais.

 

 

Senti sua mão fria no nó da toalha, ele estava prestes a arrancar a toalha, quando de repente sinto outra presença, dessa vez mais forte, abri meus olhos e vi aquela sombra que tanto me atormenta.

 

 

Tudo foi ficando embaçado, eu sentia minhas forças se esvaindo de mim e antes de cair em completa escuridão eu pude ouvir sua voz...

 

 

_ Como ousas tocar em algo que não lhe pertence? Ela é minha...!

 

 

Nisso Harry me soltou e cai em uma escuridão profunda.

 


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