"Jamais ousarás derramar o sangue de outro de tua espécie. O direito de destruição pertence somente aos anciãos. Apenas os mais antigos de vossa linhagem invocarão a Caçada de Sangue." -6ª Tradição: A Destruição

 


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Pov de Alexs


Tudo aconteceu rápido demais. As lembranças dos meus pais adotivos vinham como lampejos cruéis em minha mente. Eu conseguia ouvir a conversa deles antes de me darem a notícia de que eu iria embora. Pela raiva nas vozes, parecia que eu tinha feito algo imperdoável. Primeiro, fui abandonada pelos meus pais biológicos… e agora meus pais adotivos também me descartariam. O que havia de errado comigo? Será que eu era realmente uma aberração?

 

 

 

Corri para o quarto, meus pensamentos turvos e sombrios, e chorei até não restarem mais lágrimas. Naquela noite, fiz uma promessa: jamais mostraria fraqueza novamente. Nunca mais deixaria meus sentimentos transparecerem. Adormeci com essa certeza fria e amarga, como uma lâmina que me cortava por dentro.

 

 

 

Na manhã seguinte, minha "mãe" veio me acordar. Ela me informou que eu faria uma viagem, uma viagem sem retorno. Levantei-me sem dizer uma palavra. Meu corpo se movia como se eu já estivesse morta por dentro. Ao sair do banheiro, vi uma mala sobre a cama. Silenciosa, comecei a arrumar as poucas coisas que me pertenciam. Minha mãe me observava, o olhar carregado de algo que parecia dor, mas não passava de uma máscara. Desci as escadas com a mala. Na sala, meu pai me aguardava, com a mesma expressão. Ridículo. Para quê tanta encenação?

 

 

 

Eles se aproximaram, mas me afastei antes que pudessem me tocar. Caminhei em direção a Bárbara, a única pessoa que ainda tinha algum traço de compaixão por mim. Ela tentou aliviar a tensão, sua voz doce e forçada.

 

 

 

— Vá se despedir de seus pais, menina.

 

 

 

— Meus pais estão mortos, Bah. — Respondi com frieza, sem desviar o olhar.

 

 

 

— Por Deus, menina, o que está dizendo? — Ela parecia horrorizada.

 

 

 

— Filha, por favor... — A voz chorosa da mulher que me criou soava distante, irrelevante.

 

 

 

— Não me chame de filha. — Retruquei, gélida, sem sequer olhá-la nos olhos. — Você não é minha mãe. Eu sei que sou diferente, mas nunca machuquei vocês. Nunca os envergonhei. Ainda assim, vocês me odeiam. Tudo o que eu queria era entender... por quê?

 

 

 

— Alexandra... — Meu "pai" começou a dizer, se aproximando.

 

 

 

— Bah, vamos embora. — Cortei, minha voz firme e sem hesitação. — Eu não tenho mais nada a fazer aqui. Não sou bem-vinda.

 

 

 

Sem olhar para trás, atravessei a porta. Aquela foi a última vez que os vi.

 

 

 

 

 

 

 

 

Chegar ao Brasil foi como cair em um abismo ainda mais profundo. Não queria depender de ninguém, então me isolei. Aprendi a língua sozinha e comecei a trabalhar com computadores, algo que eu dominava com maestria. Recusei todo o dinheiro deixado pelos meus pais adotivos. Eu era um fardo para eles, e não queria nada que me lembrasse disso. Bárbara tentava me convencer do contrário, mas sua bondade não alcançava a escuridão que crescia em mim.

 

 

 

 

Anos depois, recebi a notícia de que meus pais adotivos haviam morrido. Bárbara insistiu para que eu fosse ao funeral. Cedi, mas fiz questão de não comparecer ao velório. Para mim, eles já estavam mortos há muito tempo. Apareci já na hora que o caixão deles estavam descendo, fiquei um pouco e já saí.

 

 

 

 

Meu isolamento foi interrompido quando soube que Liam e Harry faziam parte do meu "clube secreto". Acordei em um sobressalto, uma dor lancinante atravessando meu ombro. Minha visão estava turva, mas aos poucos as sombras se dissiparam. Não estava no meu quarto, o que me fez entrar em pânico. O ambiente era estranho, e as vozes que ouvi pioraram a situação.

 

 

 

 

— Já pensou no que vai fazer com ela? — Uma voz ríspida e impaciente ecoou no quarto. — Ela foi mordida por um lobisomem. Tem noção do que isso significa?

 

 

 

 

— Sei muito bem o que significa! — Uma voz familiar respondeu, furiosa.

 

 

 

 

— Só você pode decidir o destino dela. Vai ter coragem de matá-la?

 

 

 

 

O pavor se apossou de mim. A adrenalina tomou conta, e, ignorando a dor no ombro, me levantei com pressa. Avancei até a janela e, sem pensar, pulei. Não sei como, mas sobrevivi à queda. Corri pela floresta o mais rápido que minhas pernas permitiam, sem olhar para trás. O medo de ser capturada e morta por aqueles psicopatas me movia. Quando finalmente cheguei à cidade, tomei um táxi para casa, ainda desorientada.

 

 

 

 

Assim que entrei em casa, corri para o quarto e me tranquei. Queria desaparecer.

 

 

 

 

Pesadelos invadiram meu sono, como sempre. Eu ouvia a voz de Harry ao longe, pedindo permissão para entrar. Estranhamente, eu o deixei se aproximar. Senti suas mãos frias tocando minha pele febril, e isso trouxe uma estranha sensação de conforto. Aos poucos, os pesadelos começaram a se dissipar.

 

 

 

 

— H-Harry... — Sussurrei, mal acreditando que ele estava ali.

 

 

 

 

— Calma — Ele disse, com a voz baixa e suave. — Durma. Você precisa descansar.

 

 

 

 

E então, tudo escureceu novamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

Pov de Harry

 

 

 

 

Eu estava angustiado por não ter notícias de Alexs. Sabia que ela estava viva, mas a questão era: por quanto tempo? Liam tentou ajudá-la, provocando seu lado lobo, mas agora a situação era ainda mais complicada. Alexs era escolhida de um vampiro. A ofensa de Liam poderia desencadear uma guerra de sangue, e eu sabia que o tempo estava se esgotando.

 

 

 

 

Ela dormiu por dois dias seguidos, e eu fiquei de vigia. Não podia deixar que ela fosse atacada enquanto estava vulnerável. Liam rondava a casa, mas não tentou nada. O outro vampiro, aquele que a reivindicara, não apareceu. Isso me preocupava. O que ele estava planejando?

 

 

 

 

Quando Alexs finalmente despertou, sua expressão era um misto de dor e desorientação.

 

 

 

 

— H-Harry...? — Sua voz era fraca, mas o alívio era evidente.

 

 

 

 

— Está se sentindo bem?

 

 

 

 

 

— Tirando a dor no ombro... — Ela fez uma careta de dor. — Ai meu Deus! Onde estão eles? — Ela se desesperou de repente.

 

 

 

 

— Calma. Liam ficou por perto, mas não fez nada estúpido. Quanto ao outro, ele não apareceu. Estranho, não?

 

 

 

 

— Eu ouvi a conversa deles... — Sua voz estava trêmula. — O outro queria me matar. Ele sugeriu isso, mas... ele não aceitou a ideia. Então, eu fugi.

 

 

 

 

— Pelo menos agora você está segura, em casa.

 

 

 

 

— Quando eu encontrar Liam... — Ela começou a tremer, seus olhos ardendo de raiva.

 

 

 

 

— Hey, calma — Eu disse, me afastando. — Não queremos ver você se transformar e me obrigar a correr pela minha vida, certo?

 

 

 

 

— Ele me mordeu! Ele tentou me matar!

 

 

 

 

— Ele te salvou — Corrigi, minha voz sombria. — Você não entende?

 

 

 

 

— Me salvou? Do quê?

 

 

 

 

— De se tornar um monstro que se alimenta de sangue humano. Ele despertou seu lado lobo, Alexs. Agora, o sangue não será sua prioridade.

 

 

 

 

— Mas ele me marcou... Isso significa que...

 

 

 

— Sim. Seu lado lobo pertence a ele. Mas o vampiro ainda tem direitos sobre você.

 

 

 

— Ok, mas agora comer porque estou morrendo de fome. - Ela disse se levantando e indo direto para o closet.

 

 

 

 

 

 

Pov de Alexandra

 

 

 

Corri para o closet e optei vestir uma calça de moletom azul bebê com detalhes em rosa, calcei minha pantufa de gatinho e corri pro banheiro escovar os dentes. Assim que cheguei a sala, Harry já me esperava com a mesa posta.

 

 

 

Dei falta por Bah que a essas horas estava sempre me animando.

 

 

 

— O que foi? — Harry disse erguendo uma sobrancelha.

 

 

 

— O que você fez com a Bárbara? — Eu perguntei preocupada.

 

 

 

_ Não se preocupe... Ela ainda está viva. Apenas usei alguns truques pra ela não acabar se machucando.

 

 

 

_ O que você fez com ela?

 

 

 

_ Mandei ela tirar umas férias, bem longe daqui, assim ela não se machuca.

 

 

 

_ Obrigada.

 

 

 

_ Pelo que?

 

 

 

_ Por cuidar de mim, proteger a Bah... Ela é a única pessoa que eu tenho no mundo.

 

 

 

_ Não por isso... Agora coma, não quero ver você desmaiando porque não se alimentou direito.

 

 

 

Sem exitar comecei a comer, eu realmente estava com fome. No momento eu só queria paz pra entender o que realmente estava acontecendo comigo.

 


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